Encontro Mundial na Suécia por Antero Monteiro

20 Jul a 6 Ago 2007

 

A “BICAVALARIA DO MINHO” NA SUÉCIA

Pois é, para quem não acredita na força, juventude e vitalidade das nossas “mulinhas” – também conhecidos por 2CV ou “fabiolas” – é de ficar de boca aberta. Na verdade, estivemos na Suécia, tendo percorrido em toda a viagem 9.300Km.
Tudo começou no dia 20 de Julho passado, quando pelas 11,00H da manhã, eu e o meu amigo Vítor Moreira “arrancámos” de Braga, com destino a Borlänge, já bem no norte da Suécia, para participarmos no 17.º encontro mundial dos amigos dos “dois cavalos” e derivados. Como é sabido, o encontro mundial dos 2CV realiza-se, em todos os anos ímpares, sendo escolhido o futuro país organizador com quatro anos de antecedência. O próximo encontro mundial de 2009, realizar-se-á na República Checa, mais concretamente na cidade de Liberec.
Mas voltando à nossa viagem, poderei dizer que foi uma viagem de aventura, de sonho e ao mesmo tempo com algumas peripécias. Nestas breves linhas, não poderei dar conta de tudo o que nos aconteceu, sob pena de cansar o nosso estimado leitor.
Então, saímos de Braga no dia 20 de Julho e pernoitámos já bem próximo de Vitória (Espanha). No dia 21 de Julho ficámos em Poitiers e no dia seguinte em Lille.
Ao chegarmos a Lille, a nossa “fabiola” quis dizer-nos que também é máquina e, por conseguinte, não poderá estar sempre a cem por cento – o acelerador não fazia o retorno convenientemente. Rapidamente resolvemos esta pequena “relinchadela” e nada mais o “nosso bichinho” reclamou durante os 9.300Km. Daí para diante, foi só cavalgar, dando-lhe apenas o respectivo alimento – no resto, é como os demais mortais. Na garagem onde o “nossa mulinha” recebeu tratamento, fomos assistidos por um francês extremamente simpático que se não cansou de enaltecer as virtudes, beleza e potencialidades dos 2CV e deitar abaixo, quanto mais pôde – no seu vernáculo francês que eu não “cacei” – os carros novos que só têm “electronique, electronique…”, mas que estão sempre a avariar. Não nos levou nada pela “borrifadela” no acelerador e outros componentes mecânicos.
Ao sair de Lille, decidimos fazer a travessia para a Dinamarca em Rostock (Alemanha). Esta nossa decisão saiu-nos cara, porque, quando chegámos a Rostock, não tínhamos barco nem naquele dia, nem no dia seguinte o que implicou que tivéssemos de regressar a Puttgarden, onde pernoitamos. Esta “brincadeira” custou-nos meio-dia de atraso na viagem e ter de andar mais cerca de 400Km.
Depois do merecido e necessário recuperar de forças – para nós porque o nosso “bichinho” nada reclamava – fizemos a grande cavalgada da viagem – arrancamos de Puttgarden até Borlänge, numa distância de cerca de 1.100Km. Foi mesmo uma maratona. Passámos a Dinamarca, sendo de salientar a linda e imponente ponte que a liga a Malmo e percorremos a Suécia até Borlänge onde chegámos já ao fim do dia – depois de cinco dias de viagem. Não direi que chegámos já noite porque aqui não há verdadeiramente noite, nesta época do ano.
Esta realidade de não haver noite foi para nós uma novidade em termos de experiência, pois apenas fica um lusco-fusco antes da meia-noite e, bem cedo, depois das 3,00H, já temos o “Grande Astro” a chamar-nos. Assim, mesmo já tarde, foi fácil montarmos as tendas e de seguida repousar de tão grande viagem, pois as “fabiolas” têm uma velocidade de cruzeiro bem mais reduzida que estes novos carros “electrónicos”.
O encontro mundial dos 2CV realizou-se nos arredores de Borlänce – cerca de 20Km –, num aeroporto preparado para o efeito. Para quem já conhece este tipo de eventos, este não revestiu qualquer particularidade, mas para quem não conhece, eu sumariamente direi que se aproxima bastante dos grandes eventos dos anos sessenta, onde aparece de tudo um pouco, mas sobretudo o espírito sonhador que parece ter abandonado a Humanidade. Transparece o bem-estar espiritual, a calma, a harmonia, a jovialidade, apesar de as condições físicas não serem as mais adequadas e confortáveis. Penso que é bom, pelo menos uma vez na vida, participar num encontro destes. Também nestes encontros, encontramos pessoas de todas as idades – jovens como nós – e até crianças de tenra idade. Os carros são também para todos os gostos e feitios. Desde os carros conservados no mais puro original até às adaptações mais incríveis de que não é possível dar conta, mas que deixamos à imaginação de quem tiver a paciência para nos ter acompanhado até aqui.
O encontro, em Borlänge, decorreu entre os dias 24 e 29 de Julho, com os mais diversos eventos no local da concentração e passeios pela região, estendendo-se até a países vizinhos como a Finlândia e Noruega. De todos os concertos, eu apenas salientaria o concerto do dia 26 de Julho que terá sido “encomendado” para os jovens com mais idade – talvez mais de cinquenta anos, mas que os jovens-jovens também adoraram.
Aqui (lá) em Boränge existia uma representação portuguesa de bicavalistas que não deixou ficar mal o nosso país. Foi organizado, por alguns bicavalistas lisboetas, o “célebre almoço” do bacalhau em que eu e o meu amigo Vítor não pudemos participar pelo facto de já termos um compromisso, nesse mesmo dia, em Estocolmo – cidade lindíssima que é obrigatório visitar.
A Bicavalaria do Minho esteve condignamente representada neste encontro mundial – não me refiro a mim – mas aos outros dois sócios que também tiveram o arrojo de, montados nas suas mulinhas, partirem à conquista de Borlänge. Refiro-me ao bicavalista António Ventura (de Braga) e ao bicavalista Tó Zé (da Guarda). Para estes, o meu reconhecimento não só pela coragem, mas sobretudo pelo seu espírito jovem e de aventura que espero conservem por muitos anos e que eu os possa ver e acompanhar.
A viagem de regresso foi bem mais calma. Viemos pela Noruega, tendo visitado a capital e feito o lindo percurso quase até Bergen. A Noruega vale – na nossa humilde opinião – pela beleza das suas paisagens, pelo grande equilíbrio que se encontra entre o homem e o meio. Estivemos na neve, percorremos florestas e sobretudo fomos sempre acompanhados pela água…
Passámos também por Copenhaga e por Amesterdão. Adorei as duas por razões diferentes. Copenhaga ainda uma cidade com cariz nórdico, mas já com algum calor e onde é importante salientar as suas construções, sobretudo o Tivoli. Amesterdão pela sua diferença, pelo seu romantismo e “loucura”. Vale a pena visitar qualquer uma delas.
Depois de Amesterdão, começou a “fazer-se tarde” e o tempo a acabar. Então rumámos a Braga, apenas fazendo as paragens necessárias ao restabelecimento dos bicavalistas e da nossa mulinha. E tudo acabou bem… chegámos ao fim do dia, do célebre dia 6 de Agosto de 2007, depois de termos percorrido mais de nove mil quilómetros.
Sem querer maçar, não resisto a contar a peripécia das tendas. Como é mister (não tendo eu como companhia o meu amigo Vítor), resolvemos equipar-nos com o “topo de gama” em matérias de tendas. Sim, porque um verdadeiro bicavalista faz campismo e recusa a “prisão” dos hotéis. Só que as tendas iam dando em “barraca”. Comprámos tendas “de marca” que se montam em dois segundos, mas o cabo dos trabalhos foi dobrá-las. Eu nem sequer me atrevia e o meu amigo Vítor chegou ao desespero de querer abandoná-la e comprar outra. Uma fita dos nossos sarilhos “na dobragem” das tendas daria um bom filme cómico que rivalizaria com os melhores. E aquilo é tão simples…
Uma esperança e contentamento nós temos – é que já falta menos um dia que ontem para o próximo encontro da República Checa. Coragem bicavalistas e resolvam-se a cavalgar!

Antero Monteiro, sócio fundador (nš2)            .

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