A Bicavalaria do Minho – Clube 2 CV e Derivados levou a cabo, entre os dias 31 de Março e 7 de Abril, a sua terceira actividade prevista para o ano de 2007. Depois da “Bênção das Mulinhas” (Sameiro/Braga, 28 de Janeiro) e de “Os 2 CV nas Amendoeiras em Flor” (Vila Nova de Foz Côa/Vila Flor, 3 e 4 de Março), o Clube organizou “As Mulinhas vão à Neve”, actividade que levou dez 2cv com 22 participantes (sócios do Clube e familiares) aos Pirenéus Franceses, mais concretamente a Egat Font-Romeu, estância de Inverno não muito longe de Andorra. A organização do evento pertenceu à Direcção do Clube mas contou com a logística e o apoio do bracarense Eng.º Rui Rua, amigo do Presidente do Clube e da Associação. O Rui Rua, nesta mesma semana (anterior ao domingo de Páscoa), levou em 2006 os 2cv a fazer o seu “Minho/Marraquech – Baptismo em Marrocos” (ver Topos & Clássicos nº 63 - Julho de 2006). Desta vez o Eng.º não foi connosco. Estava novamente em Marrocos, desta vez com as “latinhas” – as Renault 4L da Confraria Amigos 4L – com sede na Amadora.
Ainda não eram 7 horas da manhã do dia 31 de Março (sábado, dia da partida) e já o Francisco Dias, sócio do Clube e participante no passeio parava o seu 2cv no Parque de estacionamento do Carrefour de Braga. Era o primeiro a chegar. O local tem sido escolhido pelo Clube para a concentração dos carros antes das saídas, por se tratar de um local por toda a gente conhecido e de fácil acessibilidade. Pouco depois, e um a um, chegavam os sete carros também inscritos que saíam de Braga. Dos três em falta para completar “Os Dez Magníficos”, um entrava em Guimarães (o Manuel Cardoso e o Romano) e dois (o Fernando Pereira e o Joaquim Loureiro, ambos do Porto) haviam de integrar a caravana em Vila Pouca de Aguiar.
A manhã estava fria e a ameaçar chuva. A caravana avançou pela A 11/IP9 e A 7/IC5 até Vila Pouca, onde se integraram os três carros em falta, e A 24/IP3 até Chaves. Pouco depois entrava na A 52, a Auto-via Rias Baixas, passava ao lado de A Gudiña e parava em Puebla de Sanabria para abastecer. De seguida, o grupo avançava em direcção a Benavente e Villalon de Campos, terra emblemática para o Clube e local escolhido para o almoço/piquenique. É que já tínhamos ali parado para almoçar (piquenique) em 2003 (quando quatro 2 CV do Clube se deslocaram em Julho/Agosto a Vinadio, Itália, ao 16º Encontro Mundial dos Amigos dos 2 CV), e em 2005 com os dois 2 CV que se deslocaram em Julho a Kelso, na Escócia, ao 17º Encontro Mundial. Trata-se de um verdadeiro oásis (com um jardim, alguns bancos e algumas/poucas sombras) no meio do deserto da meseta espanhola (no verão, verdadeiro inferno!) e onde a passagem se dá a uma hora em que já apetece “dar ao dente”. Restabelecidas as forças, partida em direcção a Palência, Aranda de Duero e Sória, onde chegamos ao fim da tarde desse dia depois de cerca de 650 km percorridos, e onde nos aguardava um excelente hotel (Afonso Vlll) com reservas já feitas em Braga.
O despertar do dia seguinte (domingo) foi fantástico. Não é que estava a nevar? Ninguém queria acreditar! Ainda estávamos a meio do caminho para o nosso destino de neve e esta já se fazia anunciar em pleno centro de Espanha. E foi com a neve por companhia (embora apenas durante alguns quilómetros) que, depois de um excelente pequeno-almoço, a caravana partiu em direcção a Zaragoza. A passagem ao lado desta cidade e da seguinte (Lérida) foi complicada devido ao facto de ser domingo e muitos espanhóis viajarem ou para a neve, para os Pirenéus como nós, ou para outros destinos, fugindo do cinzento da Semana Santa espanhola. Pouco depois passávamos em Manreza e virávamos para o nosso destino nos Pirenéus Franceses: Egat Font-Romeu. A serra já se fazia anunciar com a sua paisagem característica e a neve começava a aparecer nos picos mais elevados. À hora marcada para a chegada ao complexo hoteleiro (19 horas) estávamos a entrar no átrio. Pontualidade inglesa! Aguardava-nos com simpatia a responsável pela recepção aos grupos. Feitas as formalidades da praxe, e depois de uma recepção ao grupo com discursos e vinhos da região (moscatel), veio o jantar, a projecção de um filme sobre a Cerdagne (todos os fins de tarde e noites – 18,30 h e 20,45 h – havia animação no hotel!) e o descanso, não sem antes apreciarmos a neve que caía abundantemente.
O dia seguinte (segunda-feira) foi dedicado a conhecer a região. As “Mulinhas”, que descansavam abrigadas da neve, assim ficaram. O passeio matinal foi a pé a Font-Romeu, estância de Inverno a 1.800 metros de altitude, e o da tarde, depois do almoço no hotel, foi de autocarro para conhecer região da Cerdagne. Nova animação ao fim da tarde (apéritif dés régions), jantar, jogos à noite (soirée jeux) e o descanso, novamente.
A terça-feira foi dedicada a uma visita a Andorra. Todos os participantes à hora marcada puseram as máquinas em movimento e percorreram em caravana os cerca de 65 km que nos separavam daquele Principado, levando na mala um piquenique preparado pela cozinha do hotel, uma vez que aí não almoçávamos. Feitas as compras da praxe e as visitas da ordem, regresso a Font-Romeu para assistir ainda à actuação do grupo Balanga que, depois do jantar, havia ainda de fazer a animação da noite. E que animação! Era ver então os bicavalistas a conduzir agora as suas companheiras nas voltas da dança com uma perícia invejável. O grupo que tocava empolgou-se com a prestação dançante “des portugais” e os bi-cavaleiros (que chegaram a pegar nas percussões do grupo e a acompanhá-lo!) entusiasmavam-se com o desempenho musical do grupo. Um ciclo vicioso tipo “pescadinha de rabo na boca”! Dançou-se até tarde o chá-chá-chá, a rumba, a valsa e o tango, sempre com a neve como pano de fundo, agora a cair quase compacta. Aliás, com mais ou menos intensidade, nevou todos os dias em que estivemos em Font-Romeu.
O dia mais esperado era a quarta-feira. Havia a promessa de “baptismos na neve”! Logo depois do pequeno-almoço todos os bicavalistas se dirigiram aos seus carros para sair em direcção às pistas de neve, seguindo a carrinha que às 9,15h para lá transportava os esquiadores que estavam no hotel. A viagem era curta: dois quilómetros, mais ou menos. Aventureiros para a neve é que havia poucos! Depois de alugarem o equipamento no próprio hotel, foi com enorme boa disposição que os dois Joões da comitiva (jovens de 13 e 15 anos, filhos do Paulo Torres e do Domingos), se equiparam e começaram uma dança hilariante na neve, onde estavam mais tempo “espalhados no chão” que em pé. Para completar o quadro, o Artur Dias, o mais jovem sócio participante, fazia de maestro. Como o frio era intenso, entramos todos para um edifício panorâmico que fazia de café, salão e restaurante e onde pudemos assistir, confortavelmente sentados, a esse belo espectáculo. Deles, e dos outros esquiadores, embora não pelos mesmos motivos. Depois de muitos trambolhões dos actores (ao fim da manhã, e depois de uma batalha titânica com os esquis, já se seguravam em pé e até já deslizavam…) e de muita risota da assistência, que em alguns casos levou até às lágrimas, regresso ao hotel para almoço. De tarde o Artur, já cansado de tanto batalhar com os esquis, passou-os a outro bravo bi-cavaleiro que também quis experimentar tal proeza: o Amaro Nogueira. Não pudemos presenciar a “luta com os esquis”, mas contaram-nos que os “Joões” até já faziam esqui e o Amaro ainda fazia “escu”! O fim de tarde previa jogos (jeux apéro) e a noite diaporamas sobre a flora dos Pirenéus.
Quinta-feira era o dia em que começava o regresso a casa. Partimos às 8,30h em direcção a Foix, que visitamos (e que já conhecíamos por termos aí estado quando fomos a Itália), Tarbes e Lourdes. Antes, na zona de Foix, ainda paramos para visitar umas grutas pré-históricas, o que não se concretizou por só estarem abertas de tarde. Em Lourdes, por razões óbvias, a visita foi mais demorada e a chegada a Pau, destino para pernoitar, foi algo atribulada por a cidade estar em obras e o Hotel Íbis (com reservas pelo Clube) se situar mesmo no centro. Nada que a Bicavalaria e os GPS’s não resolvessem. Valeu a pena foi excelente jantar num simpático restaurante (onde trabalhavam portugueses) e que nos foi recomendado pela recepcionista do Íbis.
De manhã (já era sexta-feira!) partida em direcção a Bayonne e S. Sebastian, tendo como destino a bela cidade basca de Bilbao. E foi entre estas duas últimas cidade que se deu a única contrariedade da viagem: a “mulinha” do António Castanheira recusava-se a andar mais! Ainda passou a portagem mas ficou arreada logo a seguir. Uma avaria no motor (ouvi o Domingos a falar em casquilhos e na cambota…) obrigava a usar a Assistência em Viagem e a chamar o pronto-socorro. Desta vez nem o Domingos conseguiu resolver. Felizmente o espaço de tempo entre a avaria e o reboque não ultrapassou uma hora e o Castanheira e o Duarte, seu acompanhante, passaram, com as malas, para outros carros e continuaram a viagem connosco. A alternativa do carro de substituição, embora possível e viável, era complexa quer no levantamento da viatura em Espanha, quer na sua entrega em Portugal. Mas esta contrariedade não fez baixar o “moral das tropas”. Foi com o mesmo espírito aventureiro que a Bicavalaria continuou viagem. A chegada a Bilbao deu-se pelas 15,30 horas, uma hora mais tarde que o previsto, mas perfeitamente a tempo para visitar o Museu Guggenheim e a cidade. Que, diga-se em abono da verdade, é um exercício absolutamente imperdível! Quer o “casco histórico” da cidade quer o museu projectado pelo meu colega Frank Gehry são duas pérolas bascas aqui a dois passos de nós. Como, aliás, grande parte das cidades espanholas, carregadas de história e recuperadas com critério. Bons exemplos a seguir, que, felizmente, também temos cá no burgo! Basta ir a Guimarães, para quem não acreditar.
O dia seguinte era o da chegada a Portugal e a segunda maior maratona para os nossos carros. Uma etapa quase igual à primeira, com cerca de 650 km, que seria ainda mais longa por termos decidido alterá-la nesse mesmo dia. Para não repetirmos a passagem por Sanabria, decidimos que, depois de passarmos em Miranda de Ebro e em Burgos, íamos virar para Valladolid e seguir por Tordesillas e Zamora. Entravamos por Quintanilha em Bragança, e fazíamos depois o IP4 até Amarante. Aqui separávamo-nos dos amigos do Porto, para onde seguiam pela A4, e tomávamos a A11/IP9 até Braga. Onde acabamos por chegar às 20 horas, cansados e debaixo de muita chuva.
Mas, meus amigos, valeu bem a pena!
Valeu a pena por termos conseguido estar em Égat Font-Romeu por pouco mais de 40 €uros/dia/pessoa, com pensão completa (et vin sur table!), graças aos esforços do amigo Rui Rua e à cadeia Azureva; valeu a pena pelas visitas e pela componente cultural (que a Bicavalaria sempre inclui nos seus passeios); valeu a pena pelas brincadeiras na neve, palco fantástico para “descomprimir” tensões e para a socialização; e valeu a pena pela camaradagem e pelo convívio conseguidos, o que levou um dos participantes a apelidar esta viagem de “passeio de família”. “Família” constituída por mim e pela minha mulher Augusta num dos carros, pelo meu irmão Manuel e pelo Romano noutro, pelo Domingos e pela Maria, pelo Fernando Pereira (que levava o João Pedro, filho do casal anterior), pelo Amaro e pela Augusta, pelo Paulo Torres e pela Isabel, que levavam os dois filhos (o João e a “pestinha” do Rui, querubim do grupo) na sua bela AKS, pelo Joaquim Loureiro, grande animador das hostes (inesquecível o “Conheces o Zé?” e o “Alá, dá-me uma cobra!...”) e pela esposa Isabel, pelo Francisco Dias e esposa Fernanda, pelo Artur Dias e pela Olga e pelo António Castanheira e pelo Manuel Duarte.
Que bela equipa aqui se formou! Só possível por haver um “fio conduto” chamado Citroen Dois Cavalos!
E assim se concretizou mais uma actividade de sucesso por terras nevadas francesas, bem ao estilo da Bicavalaria do Minho.